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A Iacútia carrega uma parte desproporcional da guerra da Rússia? O que dizem ativistas e o que mostram os dados

Ativistas de Sakha dizem que a guerra e a mobilização atingem a Iacútia muito mais do que as regiões etnicamente russas, e alguns falam em genocídio. Dados independentes de baixas confirmam um enorme fosso entre a periferia e Moscou, mas não colocam a Iacútia entre as regiões mais atingidas per capita.

Desde a mobilização parcial de setembro de 2022, ativistas da República de Sakha (Iacútia) afirmam que a guerra recai de forma desproporcional sobre o seu povo. Alguns vão além e falam numa ameaça à nação iacuta e em «genocídio». Este artigo expõe essas afirmações e confronta-as com os dados disponíveis.

O que disseram ativistas e figuras locais

  • Em setembro de 2022, cerca de 400 pessoas, sobretudo mulheres, protestaram contra a mobilização no centro de Iakutsk, noticiou a DW, citando o meio local SakhaDay. Dançaram o tradicional osuokhai e gritaram palavras de ordem como «Não ao genocídio» e «Não à mobilização». Segundo a Rádio Svoboda, a polícia dispersou o protesto.
  • A então deputada da Duma e ex-prefeita de Iakutsk Sardana Avksentieva escreveu que a Iacútia teria de fornecer 4.750 homens, «1,66% dos homens», e disse não conseguir explicar a desproporção desses números, segundo a DW.
  • Numa carta aberta de 23 de setembro de 2022, o presidente do Congresso Sakha, I. Shamaev, argumentou que, se os 300 mil reservistas anunciados fossem distribuídos pela população, caberiam à Iacútia cerca de 2.000 pessoas. Segundo ele, a escala real da convocação era «muitas vezes» maior.
  • Grupos de direitos indígenas (a Associação dos Povos Indígenas Minoritários da Iacútia e a ONG Cultural Survival) relataram a convocação de homens de aldeias remotas do norte, incluindo pastores de renas e pais de famílias numerosas. A Cultural Survival cita números de ativistas segundo os quais 50 de 128 jovens do distrito evenki de Olenek estavam sujeitos à mobilização.
  • A Free Yakutia Foundation, grupo antiguerra fundado em agosto de 2022 por ativistas de Sakha, diz organizar protestos contra a guerra e a mobilização e investigar o recrutamento por contrato. Em novembro de 2023 divulgou vídeos vazados de reuniões à porta fechada do governo da república; a The Moscow Times noticiou esse vazamento.

O dono deste site apresentou a afirmação de que a Iacútia é mobilizada «cerca de três vezes» mais do que as regiões etnicamente russas. Não encontramos dados independentes que confirmem uma proporção de 3 para 1. Os números mais próximos dessa comparação são os acima: os 4.750 de Avksentieva e a estimativa de Shamaev de cerca de 2.000 numa distribuição proporcional. Ambos são afirmações de figuras públicas, não estatísticas oficiais; a Rússia não publicou dados regionais de mobilização.

O que mostram os dados de baixas

A melhor referência independente é a lista nominal de militares russos mortos compilada pela Mediazona e pela BBC News Russo.

  • Elas confirmaram mais de 200 mil mortes. As perdas concentram-se em regiões pobres, remotas e em grande parte não russas. Por 100 mil habitantes, a Mediazona coloca à frente Tuva (476), Buriácia (400), o krai de Zabaikalsky (362) e a República de Altai (316). Segundo a BBC, as taxas de Moscou e São Petersburgo são 25 a 30 vezes menores do que as das regiões que lideram a lista.
  • A Iacútia não está entre as regiões com mais perdas nesses rankings. Num estudo revisado por pares de 2023 sobre os mesmos dados, o sociólogo Alexei Bessudnov encontrou 43,0 mortes por 100 mil homens em idade ativa em Sakha, contra 3,1 em Moscou, cerca de 14 vezes mais. Contudo, Sakha ficou em 57.º de 85 regiões, atrás de muitas regiões maioritariamente russas como Pskov, Kostroma ou Briansk.
  • Bessudnov concluiu que buriates e tuvanos morriam cerca de quatro vezes mais do que os russos étnicos. Quando se levam em conta as condições socioeconómicas regionais, as diferenças étnicas diminuem muito. Para ele, a pobreza e o recrutamento em regiões pobres, e não a etnia em si, explicam a maior parte da disparidade. Não foi possível medir os iacutos separadamente, porque os seus nomes costumam ter forma russa.

Em resumo, os dados apoiam a ideia de que o peso da guerra é muito desigual: um homem da Iacútia tem muito mais probabilidade de morrer do que um de Moscou. Mas, até agora, não mostram que a Iacútia perca mais per capita do que as regiões etnicamente russas no seu conjunto.

«Genocídio» e «patrimônio genético»

As palavras «genocídio» e a ameaça ao «patrimônio genético» iacuto vêm de manifestantes e ativistas; não são conclusões deste site. Pela Convenção da ONU sobre o Genocídio de 1948, genocídio exige atos específicos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Não temos conhecimento de que algum tribunal ou organismo internacional se tenha pronunciado sobre uma acusação desse tipo em relação à Iacútia.

A posição das autoridades

O Ministério da Defesa russo disse que não há quotas fixas de mobilização, apenas tarefas definidas pelo número de pessoas inscritas no registo militar, observa a Cultural Survival. Em setembro de 2022, o chefe da Iacútia, Aisen Nikolaev, reconheceu que tinham sido convocadas pessoas que não deviam ser mobilizadas, como homens sem serviço militar e pais de quatro filhos. Ordenou um «filtro duplo» e o regresso dos mobilizados por engano. Segundo a Rádio Svoboda, o primeiro avião levou de volta à república 35 desses homens.

Um reel do Instagram enviado à redação como referência não pôde ser revisto e não é usado como fonte.

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